www.catanduvaemdia.com domingo, 4 de abril de de 2.004
Ciência

Mário Eugênio Saturno

Pesquisador Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Professor do Instituto Muncipal de Ensino Superior de Catanduva (fafica.br), Congregado Mariano.
Email: mariosaturno@uol.com.br.

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A Aurora da Ciência

    Quando a espécie humana tornou-se caçadora e dominou o fogo, passavam os dias em caça e à noite reuniam-se em torno da fogueira, observavam as estrelas e imaginavam que eram outros acampamentos de caçadores. Se estavam no céu, por que não caíam? Deviam ser poderosos. Assim, nasciam as deidades celestes, uma para cada necessidade, que precisavam ser bajulados por sacrifícios. Nascia a "indústria" de sacerdotes.
    O método científico nasceu na ilha de Samos, no mar Egeu, entre os anos 600 e 400 A.C.. Os gregos colonizaram essas ilhas remotas do Mediterrâneo. Foi aí que ocorreu o primeiro conflito entre ciência e misticismo, natureza e deuses, onde se acreditou que o universo era compreensível porque era ordenado e organizado (a idéia do cosmos contra o caos), explicável sem a necessidade de deuses.
    O Egito, a Babilônia, a China e a Índia eram impérios antigos e, por conseguinte, hostis a novas idéias. Já, as ilhas Jônicas eram colônias novas, cidades-estado, onde o isolamento dos impérios promoveu a diversidade e o livre-pensamento. Mercadores da África, Ásia e Europa lá se encontravam e trocavam mercadorias, histórias e idéias. Interagiam muitas tradições, preconceitos, linguagens e deuses. Estavam prontos para experimentar, para questionar. E uma pergunta leva a outra.
    O poder político, que estava nas mãos dos mercadores, promovia a tecnologia que lhes trazia prosperidade. Mercadores e artesãos foram os pioneiros na ciência. O primeiro cientista jônico foi Tales, de Mileto. Estudou a sedimentação do delta do rio Nilo, propôs uma origem da Terra por esse processo. Introduziu a astronomia e a geometria nas ilhas jônicas.
    Depois, veio Anaximandro, de Mileto, que realizou o primeiro experimento científico da história, com um bastão fincado no chão, estudou a sombra que o sol fazia. Com um instrumento utilizado para agredir, Anaximandro mediu o tempo, a duração do ano e das estações. Um grego originário da Sicília, Empédocles, usando um objeto de cozinha, o ladrão de água, descobriu a existência do ar, a matéria invisível. Deduziu que deveria ser tão dividida e tão fina que não podia ser vista. Então, Demócrito, originário de Abdera, continuou os estudos de Empédocles e propôs, por volta de 400 A.C., a existência do átomo (do grego que significa não divisível) e que todos os objetos eram compostos de átomos. Também, foi o primeiro a entender a Via Láctea como um agregado de sóis.
    Porém, a liberdade de pensamento cessou logo, Anaxágora, contemporâneo de Demócrito, acreditava que a lua era composta de materiais semelhantes ao que encontramos na Terra. Como os místicos viam a lua como um deus, Anaxágoras foi condenado e preso por blasfêmia. O misticismo começava a vencer.
    Pitágoras, que viveu na ilha de Samos, deduziu que a Terra era uma esfera. Era fascinado pela matemática e pelos cinco poliedros regulares (só existem cinco), em especial pelo dodecaedro (formado por doze pentágonos regulares, que virou o símbolo de seu misticismo). Seu grupo entrou em choque quando descobriram que a raiz quadrada de dois não era um número racional, isto é, a razão de dois números. Isso ameaçava a crença em um mundo racional (compreensível).
    Os pitagóricos desprezavam a prática, a experimentação, criam que com o raciocínio deduziriam tudo. Essa crença encontrou seu maior expoente no ateniense Platão, discípulo de Sócrates, e que teve continuidade no seu discípulo Aristóteles. Depois, os cristãos adotaram a mesma linha de pensamento.
    Foi preciso passar-se dois mil anos para que a observação e a experimentação fossem redescobertas.