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A Bíblia é mais difícil do que parece
Ao contrário do que se pensa, os católicos também valorizam a Bíblia, assim como outros símbolos da fé cristã, só que cada coisa tem seu tempo.
Certamente você já ouviu dizer que basta ler a Bíblia para conhecer Deus e seus propósitos para nós. Porém, pelo que observamos, chegamos à conclusão que Deus não fala coisa com coisa. É muita gente "inspirada" pelo Espírito Santo dando mensagens diferentes. Será que existe mais que um Espírito Santo?
Ora, Deus não é confuso, nem produz divisão. Deus é amor, união, perdão. O grande problema é que a Bíblia é uma coleção de livros, que foram escritos em épocas diferentes e em línguas diferentes: hebraico, aramaico e grego.
Por volta do ano 300 A.C., Ptolomeu II mandou traduzir o Antigo Testamento, a tradução ficou conhecida como a Bíblia dos Setenta. Acontece que vários originais em hebraico foram perdidos, como parte de Daniel (capítulos 13 e 14), restando apenas a tradução grega. Sem o original hebraico, algumas religiões e seitas não aceitam o texto grego.
Outro problema é que a Bíblia foi copiada, copiada e copiada. Cópia da cópia acabou produzindo uma infinidade de versões da Bíblia. E, conseqüentemente, erros foram introduzidos. Há um agravante, a língua hebraica da Bíblia não tinha vogais, somente consoantes. Só a partir do século VII d.C. acrescentou-se vogais ao Antigo Testamento.
Quem conhece bem uma outra língua defronta-se com um grande problema quando quer expressar uma idéia ou sentimento nas duas línguas. Traduzir não é simplesmente consultar um dicionário e substituir palavras. A equivalência não é simples e raramente traduz a idéia completamente. Aliás, jamais reproduz a sonoridade na língua original, como em um poema. É o que se diz do Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), precisaríamos estudar hebraico para entender a mensagem de Deus.
A própria composição da Bíblia é complicada. Por exemplo, acreditou-se que o Pentateuco era obra de Moisés, porém, análises literárias feitas nos últimos cem anos concluíram que o Pentateuco é o resultado de quatro documentos diferentes, mas escrito muito tempo depois de Moisés.
A mais antiga é a narrativa chamada Javista, já que usa o nome Iahweh, como revelado a Moisés; teria sido escrita por volta do século IX A.C. Depois, surgiu a narrativa Eloísta, pois usa o nome mais comum de Deus, Elohim. As duas narrativas foram juntadas e, depois, o Deuteronômio foi acrescentado. Surgiu, por último, o código Sacerdotal.
Então, transformou-se na forma como conhecemos hoje. Pode-se confirmar que no Gênesis há dois relatos da criação (1,1-2,4a e 2,4b-3,24); há duas genealogias de Caim (4,17s e 5,12-17); dois relatos combinados do Dilúvio (6-8); duas expulsões de Agar (16 e 21); três narrativas da desventura de Sara (12,10-20; 20; 26,1-11); duas histórias combinadas de José nos últimos capítulos. No Êxodo temos duas narrações da vocação de Moisés (3,1-4,17 e 6,2-7,7); dois milagres da água (Ex 17,1-7 e Nm 20,1-13); dois textos do decálogo (Ex 20,1- 17 e Dt 5,6-21). E tantas outras passagens.
Assim é toda a Bíblia, de complicada compreensão para teólogos, lingüistas, literários, historiadores, sociólogos, em suma, para todos os doutos. Infelizmente, não existe um "Espírito Santo" que instrua os leigos na área e traduza a "idéia" original do texto.
Por tudo isso, temos que ver o quão abençoados somos nós por termos como pastores (católicos, protestantes, cristãos) pessoas que realmente estudaram para entender a Palavra de Deus.
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